A PALAVRA VIVA E EFICAZ

Por Rev. Ronaldo P Mendes

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” (Hebreus 4.12).
Este é um dos textos no qual se baseiam alguns teólogos para defenderem a teoria “tricotomista”, que afirma que o homem é formado de corpo, alma e espírito. Seria esse pensamento correto? O que realmente quer dizer esse texto? Será que esse versículo dá realmente base para o pensamento “tricotomista”?
O autor aos Hebreus nesse capítulo discute sobre o descanso de Deus que é reservado para os crentes, no verso 12 o foco é o poder da palavra de Deus. O autor lembra aos seus leitores que a Palavra de Deus não pode ser tomada de forma imprudente. Então ele descreve com uma linguagem rica mostrando e exemplificando o poder dessa Palavra.
O contexto dessa passagem está relacionado com a superioridade de Jesus em relação a Moisés, que abrange o capítulo 3.1 – 4.1-13. Aqui, no contexto mais próximo a passagem (4.1-13), o autor faz o convite para entrar no descanso de Deus. O foco no capítulo 4 é tanto os israelitas descrentes que se recusaram a obedecer a Deus, quanto os crentes que em fé entram no descanso prometido de Deus.
“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz…”, o termo “Palavra de Deus…” (logos no grego), não está se referindo, como pensam alguns teólogos, à pessoa de Jesus, o “logos” apresentado por João em seu evangelho (João. 1.1). A expressão palavra de Deus ocorre pelo menos 39 vezes no Novo Testamento e quase exclusivamente é a designação para a palavra falada ou escrita de Deus e não ao Filho de Deus. Nos versículos introdutórios da Epístola aos Hebreus, o escritor claramente declara que Deus falou aos pais no passado, e no presente ele falou a nós por seu Filho (Hb. 1.1,2). Em Hebreus, Jesus é chamado de Filho de Deus, mas nunca a palavra de Deus.
Se considerarmos os versos do capítulo 3 veremos que o escritor cita a passagem do Salmo 95, onde se lê: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (v.15). Que é repetido no verso 7 do capítulo 4, possivelmente o escritor esteja falando no verso 12, sobre a palavra falada conforme referida no Antigo Testamento. O argumento que precedeu (3.7 – 4.11) vem ilustrando como o poder da palavra de Deus revelou a infidelidade da geração que ficou no deserto e como as Escrituras, apresentada no Salmo 95, penetram e julgam aqueles que ela convida “hoje”.
“…viva, e eficaz” – O termo grego (“zôn”) traduzido por “viva”, é aplicado a Deus em si mesmo, como expressando uma qualidade de sua natureza, Mt 16.16, 1Tim. 4.10, Heb. 3.12. E também peculiarmente designa a Cristo o Mediador, Ap. 1.18. E ele é “aquele que vive” a mesma palavra. Com a palavra ‘viva’ podemos comparar a referência que fez Estevão (Atos 7.38) e a descrição de Pedro (1Pedro 1.23). A palavra, por ser a Palavra de Deus participa dos atributos do próprio Deus. O que entendemos, é que e ela é viva e plena de atividade e poder de realização.
”…e eficaz” , que pode ser traduzida por “efetiva”, “ativa”, “poderosa”, o apostolo Paulo usa esse termo ao falar da palavra de Deus (Colossenses 1.29). O que nos dá a entender é que a palavra é eficaz no sentido de que cumpre com o propósito para o qual tem sido enviada. Então, isso está em conformidade com o que diz algumas passagens do Antigo Testamento (Isaías 55.11) e (Jeremias 23.29). Na palavra, Deus está ativo, por isso ela jamais deixa de produzir resultados, ela traz a salvação ou o julgamento.
“…e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” – No mundo antigo, a espada de dois gumes era a arma mais afiada disponível em qualquer arsenal. O simbolismo transmite a mensagem de que o julgamento de Deus é severo, justo e terrível. O contexto deixa claro que a frase “Mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” descreve o terrível poder executar a sentença sobre os rebeldes que resistem a seu testemunho. As qualidades atribuídas à Palavra de Deus mostra que é considerado em seu poder judicial.
“… e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas ” – De acordo com o contexto de Hebreus 4.12, o que está sendo enfatizado é o poder da palavra de Deus, e não como é formado o corpo humano (como dizem os tricotomistas). Talvez se a idéia do autor fosse de mostrar divisão entres partes do homem iríamos esperar que ele dissesse “ossos e medulas” ao invés de “juntas e medulas”. Esse versículo deve ser compreendido como 1 Tessalonicenses 5.23. O autor não diz que a Palavra de Deus pode dividir “alma do espírito”. Alma e espírito são simplesmente outros termos que exprimem nosso ser mais íntimo.
“…alma e espírito” – Sobre o termo alma (no grego – Psequês) pode ser traduzido como “vida” (cf Mateus 2.20 João 10.11 e Romanos 2.9). E a palavra espírito (grego – Pneumatos) quer dizer respiração, espírito, sopro de vida. Aqui em Hebreus esse termo tem uso semelhante aos evangelhos. Denota a vida do ser humano; o âmbito dos relacionamentos entre o homem e Deus sendo difícil especificar o significado. O Novo Testamento utiliza-se do recurso do paralelismo hebraico para enfatizar a mesma idéia, isso explica porque textos falam de alma e espírito como coisas distintas, por exemplo, Lucas 1.46-47. O que vemos é uma ênfase sobre uma mesa idéia. Aqui em Hebreus, possivelmente, o autor utiliza-se de uma forma enfática para exprimir a mesma idéia, “A Bíblia separa aquilo que é inseparável”. Então não há nada tão difícil ou sólido numa pessoa, nada tão profundamente oculto que a eficácia da Palavra não penetre até lá.
“… e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” – Outra tradução: “e hábil para julgar pensamentos e conhecimentos do coração.” – O termo apta ou hábil (grego – Críticos), pode ser traduzido por “capaz de discernir ou julgar”. Com essa expressão o autor está atribuindo à Palavra de Deus a função judicial. Ou seja, ela põe em juízo os pensamentos e as idéias da mente e da vontade humana. O termo nos diz que é por ela que somos julgados. Quando o homem é confrontado por ela, ele é confrontado por Deus perante o qual nada pode ser ocultado. Podemos comparar a função da Palavra de Deus aqui com a pessoa do próprio Deus (Salmo 139.1-3).
CONCLUSÃO: O que este texto ensina? Que a palavra de Deus é viva e eficaz, poderosa para penetrar até o mais íntimo do coração humano, para separar examinar cada motivo, desejo e propósito, e descobrir seu verdadeiro valor quando nós mesmos às vezes não entendemos nossos verdadeiros pensamentos. Os israelitas no deserto perderam sua herança na terra prometida por causa da sua desobediência à Palavra de Deus.
O autor aos Hebreus exorta seus leitores a entrarem no descanso celestial, através da fidelidade à vida cristã (4.11-16). Deus está presente em sua Palavra, por isso ela é ativa e eficaz, ela penetra no mais íntimo do ser do homem como se fosse um bisturi, ela põe sob juízo os pensamentos e idéias da mente e da vontade humana. A Palavra de Deus nos deixa cônscios de que todas as coisas estão descobertas e patentes, plenamente expostas aos olhos de Deus (Salmo 139). A Palavra é quem julga o homem quando confrontado com ela. Vemos, nessa passagem, no que diz respeito a alma e o espírito que a Palavra de Deus produz uma separação entre os pensamentos e as intenções do coração. E isso é possível porque a Palavra de Deus é viva e eficaz refletindo assim a pessoa do próprio Deus. A mesma voz fala com clareza e autoridade a cada geração. Ela dirige aos israelitas no deserto, os cidadãos de Israel nos dias de Davi e os destinatários da Epístola aos Hebreus no século 1º. Esta voz ainda fala hoje.

3 Comentários

  1. A palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes. Ela também amolece e preenche qualquer coração triste amargurado, restaurando e dando vida, basta crer na palavra de Deus. Obrigada Reverendo pelas palavras. Será sempre bem vindo nos meus blogs. Vou adicionar seu blog nos meus blogs que leio. Fique na paz. um abraço!

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